Peptídeos e hormônio do crescimento

PE-22-28

O PE-22-28, também chamado de minispadina (mini-spadin), é um peptídeo sintético de 7 aminoácidos. É uma versão encurtada da spadina, um peptídeo que pesquisadores franceses do Instituto de Farmacologia Molecular e Celular do CNRS descreveram em 2010 como um antidepressivo experimental. Os dois peptídeos bloqueiam o TREK-1, um canal de potássio das células nervosas que vem sendo estudado como alvo para o tratamento da depressão.

O fato mais importante: o PE-22-28 nunca foi testado em seres humanos. Todos os resultados publicados até agora vêm de camundongos ou de células cultivadas em laboratório, quase todos do único grupo de pesquisa que o criou. Ele não é um medicamento aprovado em nenhum país, e não há nenhum ensaio clínico registrado. Costuma ser agrupado com os “nootrópicos” (supostos potencializadores cognitivos), mas nenhum dos estudos publicados avaliou memória ou aprendizado em animais saudáveis ou em pessoas.

Esta página resume o que os estudos de laboratório e em animais relatam. Ela tem fins apenas educativos e não é aconselhamento médico.

Propriedade Detalhe
Classe Peptídeo sintético, 7 aminoácidos; composto experimental de pesquisa
Outros nomes Minispadina (mini-spadin); PE 22-28
Origem Resíduos 22–28 do propeptídeo de 44 aminoácidos liberado da proteína sortilina
Alvo Bloqueia o canal de potássio TREK-1 (estudos em células)
Potência em células IC50 ≈0,1 nM, contra 40–60 nM da spadina (concentração de bloqueio semimáxima)
Doses estudadas Apenas camundongos: 3,0–4,0 μg/kg por injeção no abdome (intraperitoneal) na maioria dos testes; 0,03 μg/kg em um modelo de AVC; 1 mg/kg por via oral (gavagem)
Meia-vida Nenhum estudo farmacocinético publicado; os efeitos do tipo antidepressivo de duas versões modificadas duraram cerca de 14–23 h em camundongos
Dados em humanos Nenhum; nenhum ensaio registrado no ClinicalTrials.gov
Aprovação Não aprovado como medicamento em nenhum país
WADA Não citado nominalmente, mas se enquadra na S0 (substâncias não aprovadas), proibido em todos os momentos

O que é

A proteína sortilina (também chamada de receptor 3 da neurotensina) é produzida como um precursor mais longo. Quando ela amadurece, um fragmento de 44 aminoácidos chamado propeptídeo, ou “PE”, é clivado e liberado no sangue. Em 2010, o grupo de Valbonne mostrou que um trecho de 17 aminoácidos desse fragmento, os resíduos 12–28, bloqueava o TREK-1 e tinha efeitos do tipo antidepressivo em camundongos. Eles o chamaram de spadina (Mazella et al., PLoS Biol 2010).

A spadina tinha um problema prático: seu efeito em camundongos desaparecia em cerca de 7 horas. Para encontrar uma versão mais estável, os pesquisadores incubaram a spadina em soro de camundongo, identificaram os fragmentos em que ela se degradava e testaram trechos mais curtos em canais TREK-1 humanos expressos em células cultivadas. O menor trecho que ainda bloqueava o canal correspondia aos resíduos 22–28, que eles chamaram de PE 22-28 (Djillani et al., Front Pharmacol 2017). Uma revisão posterior do mesmo grupo se refere a ele como minispadina (Mazella et al., Front Pharmacol 2018).

O artigo de 2017 também produziu 16 versões modificadas do PE 22-28, adicionando grupos químicos a uma das extremidades ou trocando o primeiro aminoácido (glicina) por alanina. Três peptídeos foram levados adiante:

Peptídeo Alteração em relação ao PE 22-28 IC50 para TREK-1 em células
Spadina (PE 12-28) Peptídeo original mais longo, 17 aminoácidos 40 nM
PE 22-28 Nenhuma ≈0,1 nM
G/A-PE 22-28 Primeira glicina substituída por alanina ≈0,1 nM
G/A-PE 22-28 biotinilado Troca por alanina mais uma marcação com biotina na extremidade inicial 1,2 nM

O artigo informa o IC50 do PE 22-28 e do G/A-PE 22-28 como 0,10 ou 0,12 nM em pontos diferentes, por isso eles aparecem aqui como ≈0,1 nM. Várias outras modificações, incluindo grupos de ácidos graxos e acetila, enfraqueceram ou eliminaram o efeito de bloqueio.

Por que o TREK-1

O TREK-1 é um canal de potássio “de fundo”. Quando está aberto, torna os neurônios menos excitáveis. Em 2006, o mesmo instituto relatou que camundongos sem o gene do TREK-1 se comportavam como camundongos tratados com antidepressivos: resistiam ao comportamento do tipo depressivo em cinco testes diferentes, apresentavam sinalização de serotonina mais forte e um aumento menor de corticosterona (hormônio do estresse) sob estresse (Heurteaux et al., Nat Neurosci 2006). Esse achado é a base para os bloqueadores de TREK-1, como a spadina e o PE 22-28.

Como age no corpo

Não há nenhum estudo farmacocinético publicado do PE 22-28 em nenhuma espécie. Não foram relatados absorção, nível máximo, meia-vida nem via de eliminação.

O que existe são medidas indiretas em camundongos (Djillani et al., Front Pharmacol 2017):

  • Estabilidade no soro. Os autores descrevem uma meia-vida no soro “relativamente curta” em tubo de ensaio, sem informar um número.
  • Duração do efeito. Após uma única injeção, o efeito do tipo antidepressivo de duas versões modificadas caiu pela metade após cerca de 14–17 h com 3,2–4,0 μg/kg e cerca de 21–23 h com 32–40 μg/kg. Isso não foi medido para o PE 22-28 não modificado, e o valor correspondente da spadina foi de cerca de 6 h.
  • Atividade oral. Administrados por via oral (gavagem) a 1 mg/kg durante 4 dias, os análogos ainda reduziram a imobilidade no teste de nado forçado. Não foi medido se o peptídeo intacto chega ao sangue ou ao cérebro após a administração oral.

Esses são “tempos de meio efeito” obtidos em testes comportamentais, não meias-vidas no sangue, e vêm de análogos modificados. Eles não devem ser interpretados como a meia-vida do PE 22-28 em pessoas.

Situação regulatória

O PE-22-28 não foi aprovado como medicamento em nenhum lugar. Uma busca no ClinicalTrials.gov por “PE-22-28”, “mini-spadin” e “spadin” não retornou nenhum estudo registrado (ClinicalTrials.gov).

No esporte, a Lista Proibida 2026 da WADA (Agência Mundial Antidopagem) proíbe em todos os momentos, na seção S0, qualquer substância farmacológica que não tenha aprovação vigente de uma autoridade sanitária governamental para uso terapêutico em humanos e que não esteja contemplada em outra parte da lista. O PE-22-28 não é citado nominalmente, mas, como fármaco experimental não aprovado, se encaixa nessa definição.

O que a pesquisa mostra

Todos os estudos abaixo foram feitos em camundongos ou em cultura de células. Nenhum testou o PE-22-28 em humanos, e nenhum estudou músculo, hormônio do crescimento, composição corporal ou recuperação física.

Comportamento do tipo depressivo em camundongos

O estudo principal é o artigo de 2017 que criou o peptídeo (Djillani et al., Front Pharmacol 2017). Ele usou camundongos machos C57Bl/6J, com 10 camundongos por grupo nos testes comportamentais. No teste de nado forçado, uma triagem padrão para medicamentos antidepressivos, passar menos tempo boiando imóvel é interpretado como efeito do tipo antidepressivo.

Teste (camundongos) Tratamento Resultado em comparação com solução salina
Nado forçado, dose única, camundongos saudáveis PE 22-28, 3,0–4,0 μg/kg, injeção Imobilidade de 92 s contra 162 s (p menor que 0,0001)
Nado forçado, dose única, modelo de corticosterona PE 22-28 3,0 μg/kg contra spadina 100 μg/kg 98 s (PE 22-28) e 117 s (spadina) contra 165 s
Nado forçado, 4 dias, modelo de corticosterona PE 22-28 contra spadina 90 s (PE 22-28) e 108 s (spadina) contra 158 s
Alimentação suprimida pela novidade, 4 dias, modelo de corticosterona PE 22-28 3 μg/kg contra spadina 100 μg/kg Latência para comer de 153 s (PE 22-28) e 129 s (spadina) contra 226 s (p menor que 0,05)

O modelo de corticosterona submete os camundongos a tratamento com hormônio do estresse durante 7 semanas para produzir comportamento do tipo depressivo. Um tratamento de 4 dias com os análogos também encurtou os tempos de fuga no teste de desamparo aprendido, outro modelo de depressão em roedores.

Crescimento de células cerebrais

Após 4 dias de injeções em camundongos, o PE 22-28 aproximadamente dobrou o número de células em divisão recente no hipocampo, uma região do cérebro envolvida no humor e na memória (1.736 contra 899 células marcadas por hipocampo, n = 5 por grupo). Em neurônios corticais de camundongo cultivados, 0,1 μM do peptídeo aumentou ao longo de 36 horas os níveis de PSD-95, uma proteína marcadora de novas sinapses (Djillani et al., Front Pharmacol 2017). Os antidepressivos clássicos costumam precisar de semanas de tratamento para produzir mudanças semelhantes em roedores, e é por isso que o grupo descreve os peptídeos do tipo spadina como potencialmente de ação rápida.

AVC em camundongos

Em um modelo de AVC (acidente vascular cerebral) em camundongos, a minispadina foi injetada em dose baixa (0,03 μg/kg) uma vez por dia durante 7 dias após o AVC e depois em dose mais alta (3 μg/kg) 4 dias por semana (Pietri et al., Neuropharmacology 2019). Os autores relatam que ela:

  • evitou a perda de peso corporal e a perda tardia de neurônios dopaminérgicos na substância negra;
  • melhorou os déficits motores e cognitivos relacionados ao AVC;
  • evitou o comportamento do tipo depressivo após o AVC nos testes de nado forçado e de alimentação suprimida pela novidade.

Em registros elétricos, o peptídeo ativou o TREK-1 em doses baixas e o bloqueou em doses mais altas. Essa ação nos dois sentidos significa que “bloqueador de TREK-1” é uma descrição incompleta e que os efeitos podem depender fortemente da dose. A melhora cognitiva aqui foi a recuperação de danos causados pelo AVC em camundongos, e não uma potencialização em animais saudáveis.

Células beta do pâncreas

Em experimentos com cultura de células, o propeptídeo natural, a spadina e a minispadina protegeram as células beta produtoras de insulina da morte causada pelo sinal inflamatório interleucina-1β. A minispadina também aumentou a proliferação das células beta (Daziano et al., Pharmacol Res 2021). Isso não foi testado em animais com diabetes nem em pessoas.

Dados em humanos sobre o propeptídeo original

Nenhum ser humano recebeu PE 22-28 em um estudo publicado. Os únicos dados em humanos dizem respeito ao próprio propeptídeo de sortilina do organismo, medido no sangue como possível marcador de depressão, e não como tratamento:

  • Os níveis séricos do propeptídeo eram mais baixos em pacientes com depressão maior do que em controles saudáveis (p = 0,035) e voltaram a se aproximar do normal com o tratamento com antidepressivos (Devader et al., J Affect Disord 2017).
  • Em 45 pacientes com depressão resistente ao tratamento, os níveis subiram cerca de um mês após a eletroconvulsoterapia, mas apenas nos pacientes que responderam (Roulot et al., Neuropsychiatr Dis Treat 2018).

Esses são estudos observacionais pequenos. Eles não dizem nada sobre se tomar um fragmento sintético seria seguro ou eficaz.

Efeitos colaterais e riscos

Sem dados de segurança em humanos

Como o PE-22-28 nunca foi administrado a pessoas em um estudo publicado, seus efeitos colaterais em humanos são desconhecidos. Não há informações sobre doses seguras, interações com outros medicamentos, efeitos na gravidez ou uso a longo prazo.

O que os estudos em animais e células avaliaram

  • Outros canais de potássio. A 100 nM em células, o PE 22-28 não afetou quatro canais relacionados (TREK-2, TRAAK, TRESK e TASK-1) (Djillani et al., Front Pharmacol 2017).
  • Canal do ritmo cardíaco. A 10 μM, os análogos não alteraram a corrente pelos canais hERG, o canal por trás de muitos distúrbios do ritmo cardíaco induzidos por medicamentos. Foi apenas um teste em células; nenhum monitoramento cardíaco em animais vivos foi relatado para o PE 22-28.
  • Riscos relacionados ao TREK-1. Camundongos sem TREK-1 são mais sensíveis à dor, a convulsões e a lesões cerebrais por falta de fluxo sanguíneo. Em camundongos, o peptídeo original, a spadina, não piorou a dor, as convulsões induzidas por cainato, o tamanho do infarto cerebral, a pressão arterial nem a função cardíaca, e não alterou a glicose no sangue (Moha Ou Maati et al., Neuropharmacology 2012). Essas verificações foram feitas com a spadina, não com o próprio PE 22-28.

O TREK-1 também atua fora do cérebro; por exemplo, ele foi estudado em distúrbios do ritmo cardíaco (Djillani et al., Front Pharmacol 2017). Não foi estudado se bloqueá-lo por longo prazo em humanos é seguro.

Qualidade do produto

Peptídeos vendidos na internet “para uso em pesquisa” não são fabricados nem controlados segundo os padrões de fabricação de medicamentos. Não encontramos nenhum estudo publicado que tenha testado a identidade, a pureza ou a esterilidade de produtos comerciais de PE-22-28, então o conteúdo de um determinado frasco é desconhecido.

Pontos principais

  • Um fragmento encurtado da spadina. O PE-22-28 é um trecho de 7 aminoácidos de um peptídeo natural clivado da proteína sortilina, desenvolvido em 2017 como uma versão mais potente e de ação mais prolongada do antidepressivo experimental spadina.
  • Potente em células, testado apenas em camundongos. Ele bloqueou canais TREK-1 a cerca de 0,1 nM em estudos com células e reduziu o comportamento do tipo depressivo em camundongos em doses na faixa de microgramas por quilograma.
  • Nenhum estudo em humanos. Nenhum ensaio foi publicado ou registrado, e não há dados farmacocinéticos, de eficácia ou de segurança em humanos.
  • Nenhuma meia-vida medida. Os valores de cerca de 14–23 h descrevem quanto tempo os efeitos comportamentais de análogos modificados duraram em camundongos, e não a meia-vida do PE-22-28 no sangue.
  • As alegações de efeito “nootrópico” não têm respaldo. Os achados cognitivos vêm da recuperação após AVC em camundongos; nenhum estudo avaliou memória ou aprendizado em animais saudáveis ou em pessoas.
  • Proibido no esporte. Como substância não aprovada, ele se enquadra na categoria S0 da WADA, proibida em todos os momentos.

Fontes

  1. Djillani A, Pietri M, Moreno S, et al. Shortened spadin analogs display better TREK-1 inhibition, in vivo stability and antidepressant activity. Front Pharmacol. 2017;8:643. PubMed; PMC.
  2. Mazella J, Pétrault O, Lucas G, et al. Spadin, a sortilin-derived peptide, targeting rodent TREK-1 channels: a new concept in the antidepressant drug design. PLoS Biol. 2010;8(4):e1000355. PubMed.
  3. Mazella J, Borsotto M, Heurteaux C. The involvement of sortilin/NTSR3 in depression as the progenitor of spadin and its role in the membrane expression of TREK-1. Front Pharmacol. 2018;9:1541. PubMed.
  4. Heurteaux C, Lucas G, Guy N, et al. Deletion of the background potassium channel TREK-1 results in a depression-resistant phenotype. Nat Neurosci. 2006;9(9):1134–1141. PubMed.
  5. Pietri M, Djillani A, Mazella J, Borsotto M, Heurteaux C. First evidence of protective effects on stroke recovery and post-stroke depression induced by sortilin-derived peptides. Neuropharmacology. 2019;158:107715. PubMed.
  6. Daziano G, Blondeau N, Béraud-Dufour S, et al. Sortilin-derived peptides promote pancreatic beta-cell survival through CREB signaling pathway. Pharmacol Res. 2021;167:105539. PubMed.
  7. Moha Ou Maati H, Veyssiere J, Labbal F, et al. Spadin as a new antidepressant: absence of TREK-1-related side effects. Neuropharmacology. 2012;62(1):278–288. PubMed.
  8. Devader C, Roulot M, Moréno S, et al. Serum sortilin-derived propeptides concentrations are decreased in major depressive disorder patients. J Affect Disord. 2017;208:443–447. PubMed.
  9. Roulot M, Minelli A, Bortolomasi M, et al. Increased serum levels of sortilin-derived propeptide after electroconvulsive therapy in treatment-resistant depressed patients. Neuropsychiatr Dis Treat. 2018;14:2307–2312. PubMed.
  10. U.S. National Library of Medicine. Busca no ClinicalTrials.gov por “spadin”, “mini-spadin” e “PE-22-28” (nenhum estudo registrado; acesso em outubro de 2026). ClinicalTrials.gov.
  11. World Anti-Doping Agency. The 2026 Prohibited List: International Standard. Em vigor a partir de 1º de janeiro de 2026. Lista Proibida 2026 da WADA.