Suplementos

Vitamina A

A vitamina A é uma vitamina lipossolúvel essencial, necessária para a visão, a função imunológica, a reprodução e o crescimento celular normal. A dieta a fornece em duas formas: vitamina A pré-formada (retinol e ésteres de retinila), presente em alimentos de origem animal e em suplementos, e carotenoides provitamina A, como o betacaroteno, presentes em vegetais. A deficiência é rara nos EUA, mas continua sendo uma das principais causas de cegueira e morte na infância em países de baixa renda.

O fato mais importante para quem usa suplementos é que a vitamina A pré-formada tem uma margem estreita. A RDA (ingestão diária recomendada) para adultos nos EUA é de 700–900 mcg RAE/dia e o limite superior é de 3.000 mcg/dia, mas suplementos isolados costumam informar 3.000 mcg RAE. O excesso fica armazenado no fígado. Entre os danos documentados com ingestões altas estão defeitos congênitos e cirrose hepática, e a vitamina A soma-se à toxicidade de medicamentos retinoides orais, como a isotretinoína.

Esta página resume o que relatam o Office of Dietary Supplements dos NIH, as Academias Nacionais, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, as bulas de medicamentos e os ensaios clínicos. Seu conteúdo é apenas educativo e não substitui a orientação médica.

Propriedade Detalhe
Tipo Vitamina lipossolúvel essencial; ingrediente de suplemento alimentar; o palmitato de retinila também é uma injeção sob prescrição (Aquasol A)
Principais formas Pré-formada: retinol, acetato de retinila, palmitato de retinila. Provitamina: betacaroteno, alfacaroteno, betacriptoxantina
RDA para adultos (EUA) 900 mcg RAE/dia para homens; 700 mcg RAE/dia para mulheres; 770 na gestação e 1.300 na lactação (19–50 anos)
Limite superior 3.000 mcg/dia de vitamina A pré-formada para adultos (cerca de 10.000 UI), tanto nos EUA quanto na UE. Não há UL para o betacaroteno
Ingestão típica nos EUA 682 mcg RAE/dia em homens e 616 em mulheres, provenientes de alimentos e bebidas (NHANES 2017–2018)
Quantidades típicas em suplementos Produtos isolados, comumente 3.000 mcg RAE; multivitamínicos, em geral 750–1.050 mcg RAE
Fonte alimentar mais rica Fígado bovino, 6.582 mcg RAE por 3 onças
Doses nos estudos citados 7.500 mcg/dia (25.000 UI) em adultos; 200.000 UI a cada 6 meses em crianças
Meia-vida Não há um valor único para um nutriente mantido em grandes reservas hepáticas; o corpo perde cerca de 0,5%–0,7% de suas reservas por dia
Status na WADA Não consta na Lista de Substâncias Proibidas de 2026

O que é

“Vitamina A” designa uma família de retinoides, principalmente o retinol e seus ésteres. Dentro das células, o retinol é convertido em duas formas ativas (NIH ODS; EFSA 2024):

  • Retinal, que forma a rodopsina, a proteína sensível à luz da retina.
  • Ácido retinoico, que atua em receptores nucleares e regula mais de 500 genes envolvidos na diferenciação celular, no desenvolvimento, na reprodução e na imunidade.

Os medicamentos retinoides são ácido retinoico ou moléculas relacionadas. Incluem a isotretinoína, a tretinoína e o adapaleno, um retinoide sintético. Não são intercambiáveis com o retinol, mas os de ação sistêmica compartilham boa parte de sua toxicidade.

Vitamina A pré-formada versus carotenoides

A vitamina A pré-formada vem de fígado, peixes, ovos, laticínios e alimentos fortificados. Cerca de 65%–80% da vitamina A consumida em países de alta renda é pré-formada. O betacaroteno e outros carotenoides provitamina A vêm de vegetais e são convertidos em vitamina A no intestino. Licopeno, luteína e zeaxantina são carotenoides que não são convertidos (NIH ODS).

As duas formas diferem em segurança. A EFSA não encontrou nenhum caso relatado de toxicidade por vitamina A causada apenas por carotenoides provitamina e afirma que o próprio betacaroteno não é considerado teratogênico (capaz de causar defeitos congênitos). Ela observa, porém, que o betacaroteno pode se somar às reservas hepáticas e que o betacaroteno de suplementos traz seu próprio risco de câncer de pulmão em fumantes (EFSA 2024).

RAE, RE e UI

As quantidades de vitamina A são expressas em equivalentes de atividade de retinol (RAE), que levam em conta o quanto os carotenoides são mal absorvidos e convertidos. Rótulos e estudos mais antigos usam unidades internacionais (UI) ou equivalentes de retinol (RE) (NIH ODS):

Fonte Quantidade equivalente a 1 mcg RAE 1 UI equivale a
Retinol (pré-formado) 1 mcg 0,3 mcg RAE
Betacaroteno, de suplementos 2 mcg 0,3 mcg RAE
Betacaroteno, de alimentos 12 mcg 0,05 mcg RAE
Alfacaroteno ou betacriptoxantina, de alimentos 24 mcg 0,025 mcg RAE

Essas conversões importam na prática:

  • Um valor em UI não pode ser convertido sem saber a fonte. Uma ingestão de 900 mcg RAE corresponde a 3.000 UI na forma de retinol, mas a 18.000 UI na forma de betacaroteno dos alimentos.
  • O UL cobre apenas a parte pré-formada. Um produto com 3.000 mcg RAE, 60% deles vindos de betacaroteno, fornece 1.200 mcg de vitamina A pré-formada.
  • Para a vitamina A pré-formada, RE e RAE são iguais, de modo que estudos mais antigos com retinol podem ser lidos diretamente. A EFSA usa um fator diferente para o betacaroteno (6 mcg equivalem a 1 mcg RE), por isso os valores de “vitamina A total” nem sempre coincidem.

Como age no corpo

Até 75%–100% do retinol dos alimentos é absorvido, em comparação com cerca de 10%–30% do betacaroteno dos alimentos na maioria dos casos. Os ésteres pré-formados de suplementos são absorvidos em 70%–90%, enquanto o betacaroteno de suplementos varia de 8,7% a 65% (NIH ODS).

A maior parte da vitamina A é armazenada no fígado como ésteres de retinila, principalmente nas células estreladas hepáticas. O corpo perde apenas cerca de 0,5%–0,7% de suas reservas por dia, e é por isso que a ingestão repetida pode se acumular (EFSA 2024).

Por que exames de sangue podem enganar

O retinol sérico é rigidamente controlado e permanece quase constante em uma ampla faixa de ingestões. Ele só cai quando as reservas hepáticas estão quase esgotadas, e infecção ou inflamação podem reduzi-lo independentemente da ingestão. Um nível de 20 mcg/dL ou menos costuma refletir deficiência moderada, e 10 mcg/dL ou menos, deficiência grave (NIH ODS). No outro extremo, foram relatados casos de hipervitaminose A com retinol sérico na faixa normal (EFSA 2024). Portanto, um nível normal de retinol não descarta excesso.

Valores de referência de ingestão

O Food and Nutrition Board dos EUA estabeleceu estes valores. As RDAs estão em mcg RAE, e os ULs se aplicam apenas à vitamina A pré-formada, de alimentos e suplementos combinados (NIH ODS; IOM 2001):

Grupo RDA (mcg RAE/dia) UL (mcg/dia)
Lactentes de 0–6 meses 400 (AI) 600
Lactentes de 7–12 meses 500 (AI) 600
Crianças de 1–3 anos 300 600
Crianças de 4–8 anos 400 900
De 9–13 anos 600 1.700
De 14–18 anos Homens 900; mulheres 700 2.800
19 anos ou mais Homens 900; mulheres 700 3.000
Gestação, 14–18 anos 750 2.800
Gestação, 19–50 anos 770 3.000
Lactação, 14–18 anos 1.200 2.800
Lactação, 19–50 anos 1.300 3.000

A RDA cobre as necessidades de quase todas (97%–98%) as pessoas saudáveis. A AI (ingestão adequada) é usada quando as evidências são insuficientes para definir uma RDA. O UL é a maior ingestão diária que provavelmente não causará danos.

O painel dos EUA baseou o UL de adultos em dois efeitos. Para mulheres em idade reprodutiva, usou a teratogenicidade, dividindo um nível sem efeito adverso observado (NOAEL) de 4.500 mcg/dia por um fator de incerteza de 1,5. Para os demais adultos, usou alterações hepáticas, dividindo um nível de menor efeito adverso observado (LOAEL) de 14.000 mcg/dia por 5. O UL não se aplica a pessoas que recebem vitamina A sob supervisão médica. O painel também alertou que pessoas com alto consumo de álcool, doença hepática preexistente, lipídios elevados no sangue ou desnutrição proteica grave podem não estar protegidas por ele (IOM 2001).

Em 2024, a EFSA revisou o UL europeu e o manteve em 3.000 mcg/dia para adultos, usando a teratogenicidade como efeito crítico. O limite se aplica a homens, mulheres em idade fértil, gestantes e lactantes e mulheres na pós-menopausa. Os limites para grupos mais jovens vão de 600 mcg/dia em lactentes a 2.600 mcg/dia aos 15–17 anos. As ingestões de referência para a população (population reference intakes) da EFSA para adultos são de 750 mcg RE/dia para homens e 650 para mulheres. A EFSA não conseguiu estabelecer um UL para o betacaroteno (EFSA 2024).

Fontes alimentares e suplementos

Valores selecionados da tabela do ODS (NIH ODS):

Alimento mcg RAE por porção Forma
Fígado bovino, frito na frigideira, 3 onças 6.582 Pré-formada
Batata-doce, assada, 1 inteira 1.403 Provitamina
Espinafre, congelado, cozido, ½ xícara 573 Provitamina
Cenoura, crua, ½ xícara 459 Provitamina
Arenque, em conserva, 3 onças 219 Pré-formada
Leite desnatado, fortificado, 1 xícara 149 Pré-formada
Ovo cozido, 1 grande 75 Pré-formada

Uma porção de fígado bovino equivale a mais que o dobro do UL de um adulto. A EFSA estimou que não se espera que as ingestões europeias ultrapassem o UL se fígado e miúdos forem limitados a uma vez por mês ou menos, e que um consumo mais frequente de miúdos ou suplementos em altas doses pode ultrapassá-lo (EFSA 2024).

Cerca de 12%–40% da população dos EUA, dependendo da idade, usa um suplemento que contém vitamina A. Os suplementos costumam usar acetato de retinila, palmitato de retinila, betacaroteno ou uma mistura (NIH ODS).

Deficiência

Nos dados do NHANES de 2003–2006, menos de 1% da população dos EUA tinha retinol sérico abaixo de 20 mcg/dL. Em nível global, uma análise conjunta de 138 países de renda baixa e média encontrou deficiência em 29% das crianças de 6 meses a 5 anos em 2013, chegando a 48% na África Subsaariana e a 44% no Sul da Ásia (NIH ODS).

O sinal clínico mais comum é a xeroftalmia, que começa como cegueira noturna e pode evoluir para dano na córnea e cegueira permanente. A deficiência crônica também aumenta a gravidade e a mortalidade das infecções, em particular o sarampo e as doenças diarreicas.

Em países de alta renda, os que correm maior risco incluem (NIH ODS):

  • Pessoas com fibrose cística. Até 90% têm insuficiência pancreática, e a vitamina A por toda a vida faz parte do cuidado padrão.
  • Pessoas com doença inflamatória intestinal ou doença celíaca. Cerca de um quarto das crianças com doença de Crohn ou retocolite ulcerativa tem deficiência.
  • Bebês prematuros. Eles nascem com reservas hepáticas baixas.

Uso médico aprovado

O Aquasol A (injeção de palmitato de retinila) é indicado em bula para a deficiência de vitamina A quando a administração oral não é viável, como na má absorção. A dose intramuscular indicada em bula para adultos é de 100.000 unidades por dia durante três dias, depois 50.000 unidades por dia durante duas semanas, seguidas de terapia multivitamínica oral por dois meses. Essas doses de tratamento estão muito acima do UL e são administradas por tempo limitado, sob cuidados médicos (bula do Aquasol A).

O que a pesquisa mostra

As evidências se dividem de forma marcante conforme a população. A vitamina A ajuda onde a deficiência é comum e não mostrou benefício geral em adultos bem nutridos.

Sobrevivência infantil em populações com deficiência

A maioria dos estudos usou doses grandes e periódicas em países de renda baixa e média:

Estudo Quem Resultado
Imdad et al., Cochrane 2022 47 estudos, cerca de 1,2 milhão de crianças de 6 meses a 5 anos Mortalidade por todas as causas RR 0,88 (IC 95% 0,83–0,93; alta certeza); mortalidade por diarreia RR 0,88 (IC 95% 0,79–0,98); cegueira noturna RR 0,32 (IC 95% 0,21–0,50)
Awasthi et al., Lancet 2013 (DEVTA) Cerca de 1 milhão de crianças em idade pré-escolar no norte da Índia; 200.000 UI a cada 6 meses Razão de mortalidade 0,96 (IC 95% 0,89–1,03); a deficiência e as manchas de Bitot diminuíram

O DEVTA, o maior estudo, não confirmou a redução de mortalidade de 20%–30% esperada a partir de estudos anteriores. A metanálise de seus autores ainda mostrou uma redução de 11% (IC 95% 5–16). A revisão Cochrane também encontrou mais vômitos nas primeiras 48 horas após a dose (RR 1,97; IC 95% 1,44–2,69).

Recém-nascidos e gestação

A administração mais precoce e a materna tiveram menos sucesso:

  • Recém-nascidos. Em 12 estudos com 168.460 neonatos, a suplementação não reduziu a mortalidade infantil aos 6 meses (RR 0,98; IC 95% 0,89–1,07) nem aos 12 meses (RR 1,04; IC 95% 0,94–1,15) (Haider et al., Cochrane 2017). Estudos agrupados também associam a dose em recém-nascidos à fontanela abaulada (RR 1,53; IC 95% 1,12–2,09) (EFSA 2024).
  • Gestação. Uma revisão de 19 estudos com mais de 310.000 mulheres não encontrou efeito sobre a mortalidade materna ou perinatal, mas encontrou menos cegueira noturna materna (RR 0,79; IC 95% 0,64–0,98) e anemia (RR 0,64; IC 95% 0,43–0,94), principalmente onde a deficiência é comum (McCauley et al., Cochrane 2015).

Sarampo

A deficiência de vitamina A é um fator de risco para sarampo grave. As evidências sobre o tratamento são mais limitadas do que se costuma afirmar. Uma revisão Cochrane de crianças com sarampo não encontrou redução geral da mortalidade (RR 0,70; IC 95% 0,42–1,15). Duas doses de 200.000 UI em dias consecutivos foram associadas a menor mortalidade em crianças com menos de 2 anos (RR 0,18; IC 95% 0,03–0,61) (Huiming et al., Cochrane 2005). No uso preventivo em populações com deficiência, a suplementação reduziu a incidência de sarampo (RR 0,45; IC 95% 0,30–0,69; baixa certeza), mas não as mortes por sarampo (RR 0,88; IC 95% 0,69–1,11) (Imdad et al., Cochrane 2022).

O CDC afirma que a vitamina A não previne o sarampo e não substitui a vacinação. Diz que a vitamina A pode ser dada a crianças com sarampo como cuidado de suporte, sob a supervisão de um profissional clínico, em duas doses em dias consecutivos, com a quantidade definida pela idade. Também alerta que o uso excessivo pode danificar o fígado, os ossos, o sistema nervoso central e a pele (CDC).

Câncer e mortalidade em adultos

A esperança de que o retinol previnisse o câncer em adultos bem nutridos, em sua maior parte, não se confirmou:

Estudo Quem Intervenção Resultado
Omenn et al., NEJM 1996 (CARET) 18.314 fumantes, ex-fumantes e trabalhadores expostos ao amianto 30 mg de betacaroteno mais 25.000 UI de palmitato de retinila por dia, versus placebo Câncer de pulmão RR 1,28 (IC 95% 1,04–1,57); morte por qualquer causa RR 1,17 (IC 95% 1,03–1,33); interrompido 21 meses antes do previsto
Goodman et al., JNCI 2004 CARET, 6 anos após a interrupção Nenhuma durante o acompanhamento Câncer de pulmão RR 1,12 (IC 95% 0,97–1,31); mortalidade por todas as causas RR 1,08 (IC 95% 0,99–1,17)
Moon et al., CEBP 1997 2.297 adultos do Arizona com risco moderado de câncer de pele 25.000 UI de retinol por dia versus placebo; mediana de 3,8 anos Carcinoma espinocelular HR 0,74 (IC 95% 0,56–0,99); carcinoma basocelular HR 1,06 (IC 95% 0,86–1,32)

O CARET combinou os dois agentes, portanto não consegue separar o retinol do betacaroteno. Estudos com betacaroteno isolado também encontraram dano em fumantes; veja a página do betacaroteno.

Uma metanálise Cochrane de suplementos antioxidantes não encontrou efeito significativo da vitamina A sobre a mortalidade em 12 estudos de baixo risco de viés (RR 1,07; IC 95% 0,97–1,18), mas doses mais altas de vitamina A foram associadas a maior mortalidade na metarregressão (Bjelakovic et al., Cochrane 2012). Uma revisão de evidências para a US Preventive Services Task Force concluiu que os suplementos ofereciam pouco ou nenhum benefício contra doenças cardiovasculares, câncer ou morte, exceto um pequeno benefício contra o câncer com multivitamínicos. Ela citou evidências limitadas que associam a vitamina A à fratura de quadril (O’Connor et al., JAMA 2022).

Doenças oculares

A fórmula ocular original do AREDS usava 15 mg de betacaroteno. O AREDS2 mostrou que ele não era necessário, e substituí-lo por luteína e zeaxantina foi pelo menos tão eficaz contra a progressão da degeneração macular relacionada à idade, com menos cânceres de pulmão (NIH ODS). Essas evidências dizem respeito aos carotenoides, não ao retinol.

Acne

O sucesso da isotretinoína levou pessoas a experimentar vitamina A oral para acne. As evidências são antigas, escassas e conflitantes:

  • Relato de dose alta. Um relato preliminar de 1981 encontrou o retinol ineficaz com 50.000–100.000 UI/dia e muito eficaz com 300.000 UI/dia em mulheres e 400.000–500.000 UI/dia em homens (Kligman et al., Int J Dermatol 1981). Essas doses equivalem a 30–50 vezes o UL de adultos.
  • Revisão. Uma revisão da literatura de 2022 identificou 8 ensaios clínicos e um relato de caso. A acne melhorou em 8 dos 9, com doses de 36.000 a 500.000 UI por dia, mais frequentemente 100.000 UI. Os autores concluíram que a vitamina A é eficaz, ao mesmo tempo que apontaram “controles e desfechos limitados”, e ressaltaram que ela é um teratógeno (Cook et al., Dermatol Online J 2022).
  • Níveis sanguíneos. Em um estudo transversal com 90 pacientes e 30 controles, a vitamina A era menor na acne e caía ainda mais com a gravidade (Tunçez Akyürek et al., J Cosmet Dermatol 2020). Isso não mostra que a vitamina A baixa cause acne nem que os suplementos ajudem. A própria inflamação pode reduzir o retinol sérico.

Não encontramos nenhum ensaio moderno controlado por placebo de retinol oral para acne, nem nenhum ensaio controlado de retinol tópico isolado. O resumo da diretriz de 2024 da American Academy of Dermatology lista entre suas recomendações retinoides tópicos, peróxido de benzoíla, antibióticos, opções hormonais e isotretinoína oral; a vitamina A oral não consta (Reynolds et al., JAAD 2024). As doses relatadas como eficazes estão na faixa em que se aplicam os riscos para o fígado e de defeitos congênitos descritos adiante. Para os medicamentos com evidências estabelecidas, veja isotretinoína, tretinoína e adapaleno.

Crescimento, músculo e reparo

A vitamina A às vezes é anunciada para recuperação e metas físicas. As evidências em humanos são restritas:

  • Puberdade tardia. Em 102 meninos de 13,6–15,5 anos com baixa estatura e puberdade tardia, um programa de nutrição com 6.000 UI/semana de vitamina A mais 12 mg/dia de ferro (n = 17) produziu crescimento semelhante ao da oxandrolona ou da testosterona de depósito, e mais rápido que a simples observação (9,3 vs 4,0 cm/ano) (Zadik et al., Clin Endocrinol 2004). Esses meninos tinham baixa ingestão de vitamina A, as doses eram modestas e o ferro também foi administrado. Isso não se aplica a adultos bem nutridos.
  • Músculo e testosterona. Não encontramos nenhum ensaio controlado mostrando que a vitamina A aumente a testosterona, a massa muscular ou a força em adultos sem deficiência.
  • Cicatrização de feridas. Uma revisão narrativa descreve papéis na renovação do epitélio e na produção de colágeno, incluindo a reversão da cicatrização prejudicada causada por esteroides anti-inflamatórios (Polcz & Barbul, Nutr Clin Pract 2019). Os ensaios clínicos são pequenos e em contextos restritos. Em 19 pacientes com lesão por radiação no reto, 10.000 UI/dia por 90 dias melhoraram os escores de sintomas (Ehrenpreis et al., Dis Colon Rectum 2005). Não encontramos nenhum ensaio de vitamina A oral para recuperação de treinos ou de lesões esportivas.

Pelo menos um caso publicado envolveu essa população. Um homem jovem que tomava suplementos de vitamina A em altas doses, além de uma ingestão alimentar elevada, para melhorar o desenvolvimento muscular, desenvolveu doença hepática crônica com fibrose grave e sinais de hipertensão portal (Castaño et al., Ann Hepatol 2006).

Efeitos colaterais e riscos

Toxicidade aguda

A hipervitaminose A aguda decorre de uma ou poucas doses muito grandes, tipicamente mais de 100 vezes a RDA, ao longo de dias a semanas. Os sintomas incluem dor de cabeça intensa, visão turva, náusea, tontura, dores musculares e má coordenação. Casos graves podem aumentar a pressão do líquido cefalorraquidiano, levando a sonolência, coma e até morte (NIH ODS).

Uma revisão sistemática de 2026 com 31 relatos, na maioria de casos, constatou que cápsulas ou comprimidos de vitamina A eram a fonte mais comum (68%). A hipercalcemia (cálcio elevado no sangue) foi o efeito mais relatado (29%), seguida de problemas gastrointestinais, neurológicos e hepáticos. Essa revisão reflete relatos de casos publicados, portanto esses números não são taxas de incidência (Padmakar, Clin Chim Acta 2026).

Toxicidade crônica e o fígado

O excesso crônico pode causar pele seca, lábios rachados, dor muscular e articular, fadiga, depressão e exames hepáticos alterados. O excesso de vitamina A se acumula nas células estreladas hepáticas, que podem se ativar e produzir colágeno, levando a fibrose, hipertensão portal e cirrose. As enzimas hepáticas geralmente sobem apenas de 1 a 4 vezes o limite superior da normalidade, e pode ser necessária biópsia para o diagnóstico. O LiverTox classifica a vitamina A como uma causa bem estabelecida de lesão hepática em doses altas (LiverTox).

A principal série clínica abrangeu 41 pacientes consecutivos com lesão hepática por vitamina A. Dezessete tinham cirrose, e 6 morreram de causas relacionadas ao fígado ao longo de um acompanhamento médio de 4,6 anos (Geubel et al., Gastroenterology 1991). Casos graves exigiram transplante de fígado (Padmakar 2026). A lesão precoce é reversível, mas a melhora pode ser lenta, e o LiverTox descreve casos com recuperação incompleta após a suspensão.

A dose a partir da qual começa o dano hepático não está bem definida:

Fonte Dose citada Base
Geubel et al. 1991 25.000 UI/dia (7.500 mcg) por 6 anos Menor dose diária contínua da série que levou à cirrose
EFSA 2024 7.500 mcg/dia por 6 anos Menor dose relatada como causadora de toxicidade hepática, a partir de relatos de casos
LiverTox Geralmente acima de 40.000 UI/dia (cerca de 12.000 mcg) Resumo clínico
IOM 2001 14.000 mcg/dia Nível de menor efeito adverso observado usado para definir o UL

Os ensaios randomizados não resolveram a questão. Em 2.297 adultos randomizados para 25.000 UI/dia ou placebo por uma mediana de 3,8 anos, não foram observados efeitos adversos em 14 sintomas monitorados, embora alguns valores laboratoriais tenham mudado (veja abaixo) (Cartmel et al., Am J Clin Nutr 1999). A EFSA examinou estudos com até 22.500 mcg/dia e não encontrou efeito adverso sobre as enzimas hepáticas. Observou que esses estudos duraram no máximo 12 meses, eram pequenos, não tinham biópsias e podem ter usado um marcador pouco sensível. Concluiu que os dados não permitem dizer se ingestões abaixo de 7.500 mcg/dia ao longo de seis anos são seguras para o fígado (EFSA 2024).

Defeitos congênitos

O excesso de vitamina A pré-formada pode causar malformações do crânio, da face, das orelhas, do coração e do sistema nervoso central. O primeiro trimestre, especialmente os primeiros 60 dias, parece ser o período mais sensível (EFSA 2024).

O estudo principal acompanhou 22.748 gestantes (Rothman et al., NEJM 1995):

Comparação Razão de prevalência de defeitos da crista neural craniana
Mais de 15.000 UI/dia de alimentos e suplementos vs 5.000 UI/dia ou menos 3,5 (IC 95% 1,7–7,3)
Mais de 10.000 UI/dia de suplementos vs 5.000 UI/dia ou menos 4,8 (IC 95% 2,2–10,5)

Os autores encontraram um limiar aparente próximo de 10.000 UI/dia de vitamina A de suplementos e estimaram que cerca de 1 em cada 57 bebês nascidos de mulheres acima desse nível tinha uma malformação causada pelo suplemento. O risco se concentrou em exposições antes da sétima semana de gestação.

O limiar exato é debatido. O IOM observou que poucos contestam uma relação causal, mas que o limiar permanece incerto. Uma coorte europeia de mulheres expostas a pelo menos 3.000 mcg/dia de suplementos não encontrou excesso de malformações maiores, embora a EFSA tenha classificado seu risco de viés como alto. Um estudo caso-controle dos EUA associou retinol de suplementos de 3.000 mcg/dia ou mais à transposição das grandes artérias, uma cardiopatia congênita (OR 8,8; IC 95% 3,8–20,5). A EFSA concluiu que 3.000 mcg/dia pode ser tratado como o nível sem efeito adverso observado e observou que, desde 2002, não há novos dados prospectivos com ingestões mais altas (IOM 2001; EFSA 2024).

Órgãos reguladores e especialistas aconselham:

  • ODS. Especialistas aconselham mulheres que estão ou podem estar grávidas, e as que estão amamentando, a evitar suplementos em altas doses acima de 3.000 mcg RAE/dia (NIH ODS).
  • EFSA. Recomenda-se que mulheres que planejam uma gravidez ou estão grávidas não consumam produtos de fígado (EFSA 2024).
  • Bula do Aquasol A. A vitamina A acima da RDA é contraindicada em mulheres que estão ou podem ficar grávidas, e a segurança acima de 6.000 unidades/dia na gestação não foi estabelecida (bula do Aquasol A).

Ossos e fraturas

O dano ósseo por ingestões claramente tóxicas está bem estabelecido, incluindo hipercalcemia, remodelação prejudicada e fraturas. Se ingestões abaixo do UL aumentam o risco de fratura é muito menos claro (EFSA 2024):

Estudo Quem Comparação Resultado
Feskanich et al., JAMA 2002 72.337 enfermeiras norte-americanas na pós-menopausa, 18 anos Retinol ≥2.000 vs menos de 500 mcg/dia Fratura de quadril RR 1,89 (IC 95% 1,33–2,68)
Michaëlsson et al., NEJM 2003 2.322 homens suecos, 30 anos Quinto mais alto vs quinto intermediário de retinol sérico Qualquer fratura 1,64 (IC 95% 1,12–2,41); fratura de quadril 2,47 (IC 95% 1,15–5,28)
Caire-Juvera et al., Am J Clin Nutr 2009 75.747 mulheres norte-americanas na pós-menopausa Quintos de ingestão de retinol Sem associação geral; aumento modesto das fraturas totais com baixa ingestão de vitamina D (HR 1,15; IC 95% 1,03–1,29)
Wu et al., J Bone Miner Res 2014 Metanálise, 8 estudos de ingestão e 4 de níveis sanguíneos Ingestão ou retinol sanguíneo alto vs baixo Fratura de quadril: ingestão de retinol RR 1,40 (IC 95% 1,03–1,91); betacaroteno RR 0,82 (IC 95% 0,59–1,14); tanto o retinol sanguíneo alto quanto o baixo aumentaram o risco. Fratura total: sem diferença

Esses são estudos observacionais, que não conseguem separar o retinol de outros aspectos da dieta e do estilo de vida. As revisões os interpretaram com cautela:

  • IOM (2001). Chamou os achados de “provocativos, mas conflitantes” e não os usou para definir o UL (IOM 2001).
  • EFSA (2024). Encontrou 17 estudos prospectivos elegíveis e nenhum ensaio elegível. Concluiu que a causalidade não pode ser estabelecida para ingestões de 1.000–3.000 mcg/dia e que as novas evidências não sustentam uma associação com 3.000 mcg/dia ou menos. Um valor consultivo europeu anterior de 1.500 mcg/dia para mulheres na pós-menopausa não foi incorporado ao UL de 2024 (EFSA 2024).
  • Dados de ensaios de curto prazo. Em 80 homens saudáveis, 25.000 UI/dia por 6 semanas não alteraram os marcadores de renovação óssea, mas o ensaio foi curto demais para avaliar efeitos de longo prazo (Kawahara et al., J Nutr 2002).

A vitamina A e a vitamina D3 podem interagir no nível ósseo. Em humanos, uma única dose grande de palmitato de retinila reduziu a resposta do cálcio à vitamina D ativa, e na Women’s Health Initiative o sinal de fratura apareceu apenas com menor ingestão de vitamina D. Achados em ratos sugerem que a toxicidade óssea pode ocorrer independentemente do status de vitamina D, de modo que a questão continua em aberto (EFSA 2024).

Lipídios no sangue

No ensaio de câncer de pele mencionado acima, após 49 meses com 25.000 UI/dia, os triglicerídeos estavam 11% mais altos, o colesterol total 3% mais alto, o HDL 1% mais baixo e a fosfatase alcalina 7% mais alta do que com placebo (Cartmel et al., Am J Clin Nutr 1999). Não foi testado se essas pequenas alterações afetam desfechos clínicos.

Medicamentos retinoides orais

As bulas dos retinoides orais alertam contra o acréscimo de vitamina A porque a toxicidade se sobrepõe. A bula da isotretinoína observa que muitos de seus efeitos colaterais, como o ressecamento da pele e das mucosas, se assemelham aos de doses muito altas de vitamina A:

Medicamento O que diz a bula
Cápsulas de isotretinoína Os pacientes devem ser orientados a não usar suplementos vitamínicos que contenham vitamina A, para evitar efeitos tóxicos aditivos
Cápsulas de acitretina O uso concomitante de vitamina A ou de outros retinoides orais deve ser evitado, pelo risco de hipervitaminose A
Bexaroteno (Targretin) Os pacientes nos estudos clínicos foram orientados a limitar a vitamina A a ≤15.000 UI/dia; a bula alerta para toxicidade aditiva
Cápsulas de tretinoína Evitar o uso com vitamina A, que pode levar a reações adversas relacionadas à vitamina A

Esses alertas vêm de bulas de medicamentos orais. A tretinoína e o adapaleno tópicos são tratados em suas próprias páginas.

Outras interações

O orlistate pode reduzir a absorção de vitamina A e betacaroteno, e seus fabricantes recomendam um multivitamínico (NIH ODS). O uso pesado de álcool e a doença hepática existente aumentam a suscetibilidade ao excesso de vitamina A (IOM 2001; LiverTox). Não encontramos nenhum estudo de vitamina A combinada com esteroides anabolizantes orais, que têm seus próprios riscos para o fígado.

Somando as fontes

O UL abrange toda a vitamina A pré-formada combinada. Um produto isolado comum de 3.000 mcg RAE, se for todo pré-formado, atinge o UL de adultos antes mesmo de contar alimentos, multivitamínicos ou fígado (NIH ODS). A hipervitaminose A pode imitar outros distúrbios, por isso uma revisão de relatos de casos ressaltou a importância de colher um histórico completo de dieta e suplementos (Padmakar 2026).

Nos EUA, a vitamina A é vendida como suplemento alimentar, e a injeção de palmitato de retinila é um produto sob prescrição. O Valor Diário da FDA (agência reguladora dos EUA) é de 900 mcg RAE para adultos e crianças a partir de 4 anos (NIH ODS). Na UE, o retinol, o acetato de retinila, o palmitato de retinila e o betacaroteno são autorizados para uso em alimentos e suplementos (EFSA 2024). A vitamina A e o retinol não constam na Lista de Substâncias Proibidas de 2026 da WADA.

Pontos principais

  • Duas formas, riscos diferentes. A vitamina A pré-formada causa a toxicidade clássica; não se mostrou que os carotenoides a causem sozinhos, embora suplementos de betacaroteno aumentem o risco de câncer de pulmão em fumantes.
  • Uma margem estreita. A RDA de adultos é de 700–900 mcg RAE/dia e o UL é de 3.000 mcg/dia de vitamina A pré-formada, um nível que um suplemento isolado comum pode atingir sozinho.
  • O benefício depende da deficiência. Os suplementos reduzem a mortalidade infantil onde a deficiência é comum (RR 0,88), mas os estudos em adultos bem nutridos não mostram benefício geral, e o CARET encontrou dano em fumantes.
  • A toxicidade grave está documentada. Foi relatada cirrose com 25.000 UI/dia ao longo de 6 anos, e a ingestão alta no início da gestação está associada a defeitos congênitos. Os limiares exatos são incertos.
  • O sinal ósseo não está comprovado abaixo do UL. Algumas coortes associam o retinol à fratura de quadril, outras não, e a EFSA concluiu que a causalidade não pode ser estabelecida com 1.000–3.000 mcg/dia.
  • Não é um atalho para a acne. Os benefícios relatados para a acne vêm de estudos fracos com doses muito acima do UL, e as bulas dos retinoides orais alertam contra o acréscimo de vitamina A.

Fontes

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